Uso inadequado das redes sociais aumenta casos de “fogo amigo”

Matéria publicada no Valor de São Paulo em 23/12/2011

Em março do ano passado, Alex Glikas agiu como um torcedor típico ao celebrar a vitória por 4 a 3 do seu time, o Corinthians, contra o São Paulo. Durante a partida, postou no Twitter comentários de apoio à equipe e também algumas provocações aos adversários. Parece ter momentaneamente esquecido que no dia seguinte, uma segunda-feira, voltaria à rotina de diretor comercial da Locaweb, empresa de hospedagem de sites que era justamente uma das patrocinadoras do São Paulo no clássico – havia pago R$ 600 mil pelo direito de ostentar a marca nas mangas do uniforme naquela e na partida seguinte do tricolor.

Quando se deu conta do potencial devastador das brincadeiras, Glikas tratou de apagá-las, mas já era tarde. As mensagens haviam sido replicadas por uma legião de torcedores enfurecidos com o fato de o diretor de um patrocinador estar torcendo abertamente para o adversário – e de forma considerada desrespeitosa por muitos. Protestos percorreram rapidamente as redes sociais e foi sugerido até um boicote à Locaweb, que se viu obrigada a emitir um comunicado oficial pedindo desculpas pelas atitudes do diretor, que “deu a muitas pessoas a impressão de que a sua opinião pessoal era a opinião institucional da empresa”.

O próprio executivo correu para se desculpar pelo Twitter, alegando que, “no calor do clássico, o torcedor tomou conta do profissional”. Apesar do arrependimento, o clima ficou carregado e empresa e empregado chegaram ao consenso de que seria melhor ele deixar a casa, onde trabalhava havia quatro anos. Oito meses depois, quando a poeira já havia baixado, Glikas foi convidado a retornar ao cargo. “Começamos a receber pedidos de clientes pela volta do executivo e chegamos à conclusão de que o episódio não interferiu nos bons trabalhos que ele oferece à Locaweb”, diz o gerente institucional da empresa, Luiz Carlos dos Anjos.

Ficou, contudo, o aprendizado. Logo depois do ocorrido, a Locaweb procurou consultores que ajudaram a empresa a produzir um guia sobre boas práticas nas mídias sociais, replicado para todos os funcionários e evocado diariamente desde então. Foi criado também um treinamento específico sobre o tema para os novos contratados. “Mesmo com toda a confusão, nunca passou pela nossa cabeça proibir o uso de redes sociais. Somos uma empresa de internet e continuamos incentivando o uso desses recursos pelos nossos colaboradores”, diz Anjos.

Há também todo o aprendizado pessoal pelo qual passou o protagonista do episódio. “É impressionante a velocidade com que a informação circula atualmente. Percebi que no momento em que você clica ‘enviar’, em poucos segundos dezenas, centenas ou milhares de pessoas têm acesso à sua opinião”, diz Glikas. Ainda traumatizado com a repercussão do episódio, ele se mantém afastado do Twitter – do qual era usuário compulsivo – e preferiu não aparecer em uma foto para esta reportagem, por saber o quanto há de insanidade na paixão futebolística. “Na internet, não há separação entre o que é pessoal e o que é profissional. É muito fácil se esquecer que você não está falando somente para os seus amigos e que, na rede, não pode se deixar levar por paixões ou emoções do momento. Trata-se de um local público”, acrescenta.

Casos de “fogo amigo” como esse, em que o funcionário não tem a intenção, mas acaba prejudicando a empresa em que trabalha, tornaram-se bem mais comuns com o advento das redes sociais. Segundo a consultora Andrea Huggard-Caine, essas novas ferramentas de comunicação se difundiram com muita velocidade e as pessoas da geração anterior não tiveram tempo para se adaptar gradualmente. As mais jovens, por sua vez, não têm a referência de como as coisas funcionavam antes e acham tudo isso normal. “Muitas estão aprendendo da forma mais dura que ser transparente não significa escrever tudo o que vem à cabeça.”

Ela diz que cabe às empresas estabelecer normas claras sobre a postura que espera dos colaboradores, a exemplo do que fez a Locaweb após sofrer na pele as agruras do uso inadequado das redes sociais. “Em muitos casos, é preciso dar parâmetros de comportamento que os pais não deram em casa. Os jovens de hoje têm dificuldade de entender o que é confidencialidade”, diz Andrea, citando como exemplo um caso bastante conhecido no mercado: o de um jovem que, entusiasmado por ter participado da reunião de fechamento do balanço da empresa em que trabalhava, correu para o Facebook para, ingenuamente, divulgar os números em “primeira mão”. O fato gerou uma multa considerável por parte da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e causou a demissão do rapaz.

Maria Cecília Coutinho de Almeida, especialista em ética empresarial da Fundação Getulio Vargas (FGV), concorda que o problema é sobretudo de educação. “O público que mais frequenta as redes sociais está na faixa entre 18 e 30 anos. São pessoas que, em geral, ainda não estão maduras profissional e humanamente”, diz Maria Cecília. “As empresas têm que pegar esses colaboradores pela mão e mostrar o que é certo e o que é errado, sem a expectativa de que elas vão perceber isso por conta própria”, acrescenta.

Se os comentários que podem trazer constrangimentos indiretos à empresa já são condenáveis, críticas diretas à organização ou ao chefe são pecados mortais para a vida profissional. Na Escola de Administração da Fundação Getulio Vargas (FGV/Eaesp), esse tema entrou em pauta durante as discussões para criação de um novo curso de educação executiva, o MBM, voltado a jovens formados há no máximo três anos. “Nas redes sociais, esse tipo de comportamento ganha um potencial muito maior e mais destrutivo”, diz José Ernesto Lima Gonçalves, coordenador dos cursos de especialização em Administração da FGV/Eaesp.

“Que o funcionário fala mal da empresa e do chefe não é novidade”, acrescenta Vandyck Silveira, CEO do Ibmec, outra importante escola de negócios. “O que não se pode de jeito nenhum é fazer isso em lugares públicos, sejam eles elevadores, saguões de aeroportos ou redes sociais”. Luca Borroni, diretor de educação executiva do Insper, diz que as empresas têm aceitado e fomentado as críticas que circulam internamente, mas não toleram que seus colaboradores “lavem roupa suja” em público. “E elas têm razão, pois se trata de uma quebra de confiança.”